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Síntese, parceria e ficção

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Síntese, parceria e ficção

:sobre a série Seu troco obrigada

 

Conversa ocorrida em dezembro de 2012 e editada por Juca Amélio com a participação de Nadam Guerra, Bernardo Mosqueira, Aline Elias, Leo Liz Lee e Ophélia Patricio Arrabal.

Um carro para no pedágio. O motorista entrega uma nota à atendente. Ela imprime um ticket para o motorista, sorri e diz “Seu troco, obrigada”. A cancela sobe, e ela tem alguns segundos até que o próximo carro se aproxime. As atendentes então pensam na vida, cantarolam canções, ou lembram de seus amores.

Aline Elias, poeta e atendente do pedágio na Rio-Teresópolis, encontrou outra maneira de usar estes segundos: fazendo poemas. Os poemas construídos entre um carro e outro estão reunidos na publicação seu troco obrigada. São poemas curtos: apenas 3 palavras.

Nadam Guerra escolheu a obra desta jovem e ainda pouco conhecida poeta de apenas 25 anos como inspiração para sua nova série de esculturas.

A convite de Nadam, marcamos um encontro entre mim, ele e o curador Bernardo Mosqueira para conversarmos sobre a série Seu troco obrigada. A conversa se deu no jardim da casa de Bernardo num dia quente de dezembro.

 

Juca Amélio: Vamos do princípio. Como conheceste Aline Elias e por que se interessaste por seus poemas?

Nadam Guerra: Foi Domingos quem me mostrou pela primeira vez o livro que ganhara de Aline num evento de poesia do SESC. Gosto deste formato espontâneo de livros xerocados, coleciono fanzines desde o século passado. Ele disse: “Você vai gostar”. E tinha razão. O seu troco obrigada se baseia em um rigor fantástico e radical.

Bernardo Mosqueira: O rigor é exatamente a proposta de escrever somente poemas de 3 palavras… Por que decidiu se relacionar criativamente com os poemas?

NG: A opção de Aline me tocou imediatamente. Como dizer tudo em 3 palavras?! E como dizer 3 palavras em uma só imagem? Vivemos uma era de excesso de informação. Como encontrar o essencial?

JA: E então você faz as esculturas em cerâmica…

BM: E, pelo que entendi, usa o mesmo procedimento da série Materializador de Sonhos em que se apropria de imagens encontradas na internet para formação inicial das imagens. Por que dessa maneira?

NG: O procedimento é o mesmo que uso desde 2008 nas esculturas. Faço a colagem com imagens da internet e então produzo o relevo de cerâmica. Me interessa a colagem pois gera uma espacialidade mágica. E depois, ao transpor isso para o relevo, a imagem se unifica.

BM: E qual a diferença do que faz com os poemas de Aline para os trabalhos anteriores?

NG: Os poemas são um desafio diferente. Se no Materializador a colagem conta toda a narrativa de um sonho, no Seu troco, a colagem capta a sensação.

JA: O fato das peças serem circulares me remete a ações cíclicas. Carros passando. Mantras. Giro. Giro. Giro. Me fazem sentir num espaço menos teatral e mais atemporal, mais arquitetônico.

BM: Desculpa, Juca, mas, na minha perspectiva, usar as poesias de Aline, que é uma grande amiga minha e responsável por ter me apresentado à Ophélia, torna todo o procedimento mais teatral. É convidar à tangência do plano do real aquilo que é criado, fantástico, narrativo, mas muito vivo – se é que me entendem. É uma espécie densa de sarcasmo como o do Oiticica, ao dizer que tirava sarro da cara de todos nós.

JA: Sim! Atemporal nas imagens e teatral na relação com a vida.

BM: E me remete, indo ou vindo, ao famoso teatro abstrato. Você passou pelo teatro uma época, não é, Nadam? Acha que ainda carrega algo desse período?

NG: Acredito que todas as artes são uma só. Acho que tudo que eu fizer vai ser um pouco teatral, sobretudo as coisas que não forem performances ao vivo. (Risos.) Podem me acusar de generalista. Não vejo muita diferença entre teatro e escultura. Acho bonita a imagem do escultor buscando a forma pura, da pintora com o avental sujo de tinta tentando alcançar o sublime com uma mancha, ou o ator devoto do seu ofício ansiando encarnar Hamlet. São imagens bonitas, mas me parecem anacrônicas. Acredito na arte contemporânea como um campo sem distinção de categorias. E, particularmente no meu trabalho, tenho buscado a relação humana antes da materialização, antes da mídia. Se eu faço uma escultura, vou buscar coisas para além de esculturas para me alimentar. Se eu faço uma performance…

 

(Toca a campainha.)

Bernardo vai atender. Chegam Aline Elias com sua namorada Leo Liz e Ophélia Patrício Arrabal. Depois de breves abraços elas se juntam a nós na conversa. Bernardo oferece uma limonada. Começa a soprar uma brisa suave.

 

JA: Estávamos falando das esculturas do Nadam sobre os poemas da Aline. Legal vocês três chegarem: acho que vão poder contribuir na construção das ideias.

Ophélia Patrício: Fico muito feliz com a sincronicidade e as sinergias que reuniram estes artistas.

Aline Elias: Encontro especial mesmo.

NG: Eu presto muito atenção nesta geração que está chegando. Vejo muita gente legal surgindo fora dos grandes centros. Gente sem preconceito de cor, de tempo, de gênero, de número ou de grau.

JA: É como se finalmente o Brasil estivesse superando o peso da ditadura militar e vislumbrando outros horizontes criativos.

Leo Liz: Não gosto muito de pensar em gerações. Acho mesmo que este seja um conceito ultrapassado. O tempo agora é o da sincronicidade, então não importa em que ano eu nasci. Estou viva hoje. Sou de hoje e partilho este hoje com vocês.

BM: Tive um amigo que dizia ter superado o medo da morte por ter descoberto a vida eterna: descobriu ser eterno no tempo passado, sendo possível em todo presente e em todo passado já presente.

OP: O espaço e o tempo não são lineares, são quadridimensionais, são como um cubo de quatro dimensões, somos ao mesmo tempo em muitos lugares diferentes e nos movemos para todas as direções, inclusive para dentro de nós mesmos.

JA: O bom de pensar assim na descontinuidade da existência é ver nossa própria limitação humana. Se tudo é tão maior que nossa capacidade de compreensão, não nos devemos levar tão a sério.

NG: Acho que a gente já pode contar da nova formação do Grupo UM. Conversando com a Aline e a Leo, tivemos a ideia de retomar as atividades coletivas. Dei a ideia, primeiro, de formarmos um grupo novo que se chamaria Abismo.

AE: O nome veio de um trecho do Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa) que eu gosto muito: “Por que não será tudo uma verdade inteiramente diferente, sem deuses, nem homens, nem razões? Por que não será tudo qualquer coisa que não podemos sequer conceber, que não concebemos — um mistério de outro mundo inteiramente? Por que não seremos nós — homens, deuses, e mundo — sonhos que alguém sonha, pensamentos que alguém pensa, postos fora sempre do que existe? E por que não será esse alguém que sonha ou pensa alguém que nem sonha nem pensa, súbdito ele mesmo do abismo e da ficção?”

NG: Pois, então, a ideia do Abismo era ser um grupo de pesquisa e colaboração nos mesmos moldes do Grupo UM quando começou entre 2002 e 2004. Daí chamei o Domingos e percebemos que o que estamos fazendo é o mesmo Grupo UM, só que com uma nova formação. No próximo ano (2013), faremos, todos juntos, um período de imersão em Terra Una para dar início às atividades. A princípio, convidei, além de Leo e a Aline que estão aqui, o Euclides, de Minas. Começamos a conversa por conta desta série Seu troco obrigada. Estamos em contato há uns meses e já temos algumas propostas colaborativas em andamento. Em Terra Una, vamos ter um tempo focados em realizar algumas obras em parceria.

LL: Eu estou pedindo material para a “composteira de resíduos artísticos”. Estou coletando obras malresolvidas, testes ou trabalhos rejeitados, obras quebradas, provas de impressão amassadas… Enfim, tudo aquilo que o artista já queria ter jogado fora, mas não conseguiu. A ideia é sobrepor estes trabalhos como em uma composteira, e deixar um tempo até que virem adubo de novas obras.

JA: Fico muito interessado em acompanhar esta produção.

LL: Acho que é um coletivo aberto e seria ótimo ter um teórico acompanhando este diálogo.

BM: No Abismo cabe tudo, tudo é UM.

JA: O colapso dos mundos para além das fronteiras!

OP: O que mais me gratifica com estes novos criadores do grupo UM é o fato de serem autores de obras físicas sem terem uma materialidade física eles mesmos. São autores eles mesmos oriundos do abismo da ficção, personagens inventados, heterônimos ou delírios farsescos.

BM: Mas este universo paralelo onde se encontram estas personalidades é muito próximo da nossa realidade cotidiana. As questões e contradições que estes artistas trazem à tona são as questões da arte e da sociedade atual. Cada autor está focado na criação de uma obra singular, ao mesmo tempo em que, juntos, vêm colaborando uns com os outros.

NG: Depois da desmaterialização da obra de arte, do desmascaramento do fetiche da imagem, a última fronteira para a liberação da arte é a desmaterialização (não a morte) do autor e o fim do fetiche da autoria.

OP: Mas, Nadam, nos conte: como funcionam na prática estes heterônimos?

NG: Cada personalidade é pensada como um conjunto de relações, Ophélia. Como um sistema que pode se auto-organizar e autogerir.

JA: Mas são heterônimos cuja obra você realiza? É isso?

NG: Também, mas não apenas, Juca. Cada sistema/personalidade gera uma obra que tem suas necessidades e sua lógica interna. Dependendo desta lógica, posso executar eu mesmo ou encontrar outra pessoa que tenha a aptidão de realizar a obra. Considero estes artistas heterônimos compartilhados ou compartilháveis.

BM: Por exemplo, Leo Liz é um heterônimo.

OP: Bernardo Mosqueira é um heterônimo.

BM: Nadam Guerra é um heterônimo.

JA: Quem escreve os meus textos sou eu mesmo.

LL: Vocês não conseguem deixar de ser muito pouco confusos sobre o que vocês esquecem que não querem poder ser, né?

JA: Como assim?

LL: Por acaso importa quem nasceu da vagina e quem nasceu do verbo? Quem faz o corpo é o dono do corpo, sempre.

AE: Deus, verbo vagina.

NG: Vejo muitos artistas hoje se pensando como personagens, fechando sua obra em alguns procedimentos e temperamentos.

OP: O que está por trás disso é a demanda por vida. O mundo anda muito automático e abstrato. É por isso, também, que se vê tanta novela. O povo quer vida. Ninguém mais tem paciência para um artista caretinha que tem um diploma e uma arte bem-feita. O artista é humano. O que ele deseja? Onde ele falha? O que ele pode?

BM: Aí que tá. Mas o que eu queria saber é o que a Aline fica escrevendo neste papelzinho.

AE: Anotei poemas aqui.

BM: Pode ler?

AE: encontro sincronicidade energia

ilusão geração agora

passado vida eterna

 

tudo dentro fora

descontínuo sonho humano

deus verbo vagina

 

saltar futuro junto

velho adubo novo

abismo cabe tudo

 

autor é ficção

imagem sou liberdade

eu outro você

 

povo quer vida

desejar falhar poder

anoto poemas aqui

 

Se fez uns segundos de silêncio naquela tarde do Jardim Botânico. Ficamos olhando Aline. Ela sorriu. Sorrimos todos.

 

 

autor_e_ficcao

Imagem: detalhe de

“Autor é ilusão, série Seu troco obrigada”

Nadam Guerra, 2013 (sobre poema de Aline Elias)

Cerâmica de alta temperatura

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