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Gênero, Classe e Arte Única

Gênero, Classe e Arte Única

:sobre a parceria de Leo Liz e Euclides Terra

 

Conversa realizada em 13 de agosto de 2013 na Terra UNA, Liberdade, MG.

Residência artística de imersão com o Grupo UM no processo para a criação da exposição Rupestre Contemporâneo. Editada por Juca Amélio.

 

OBS. Outros personagens citados:

 

Jaya Pravaz – artista e terapeuta, esposa de Nadam.

 

Tuan – 3 anos, filho de Nadam.

 

Lauzina – vizinha de Terra UNA, caseira do trutário.

 

 

Era uma manhã de inverno em Terra UNA. Após o café da manhã, estão sentados na varanda da Casa da Borboleta Juca, Euclides e Leo. O sol é suave e todos sentam de forma a se aquecer depois de um amanhecer muito frio. Começam falando apenas os três e depois se juntam Nadam Guerra e Aline Elias.

 

Juca Amélio: Queria retomar agora duas situações que aconteceram ontem para podermos gravar. Uma, durante a caminhada a Augusto Pestana e, outra, depois da apresentação do portfólio da Leo. Acho que tocamos em pontos fundamentais no calor do momento que queria sistematizar melhor agora que estamos com a cabeça fria. Primeiro, o debate que interrompeu a caminhada ontem de manhã..

 

Leo Liz: Você fala da minha discussão com o Euclides?

 

Euclides Terra: Primeiro, queria me desculpar com todos; eu me exaltei. Não costumo falar assim.

 

LL: Eu também sei que fui grossa.

 

ET: A gente conversou depois, está tudo bem agora.

 

LL: É.

 

JA: Sim, mas acho que, se são coisas que afetaram vocês dois, podíamos entender isso como um material potente. Eu estava mais na frente na trilha e não escutei como começou. Kide fez uma piada machista?

 

ET: É. Era uma brincadeira. Naquele trecho que estava mais difícil de passar, por conta da terra que caiu do barranco, cobrindo a trilha, e tivemos de escalar.

 

LL: Acho que a maior parte das pessoas leva como normal estes preconceitos na linguagem e, se eu reclamo, acha que é uma “chatice de politicamente correto”.

 

ET: Não acho que seja chatice. Tem muita coisa que a gente carrega que já não serve mais. Eu não tinha a menor intenção de parecer homofóbico ou machista. Na minha vida, o humor vem muito de uma forma de tentar se aproximar, de gerar uma proximidade. É uma cultura masculina, talvez, de sacanear o amigo e isso ser, no fundo, uma demonstração de afeto…

 

JA: … Uma fraternidade: se constrói uma relação que quanto mais íntimo, mais se pode ridicularizar o outro.

 

LL: O que é muito escroto e mascara várias relações de poder truncadas, opressão, bullying, etc.

 

ET: Nem sempre. É um pouco um dado cultural do brasileiro, também. Do futebol. Da confraternização entre os lavradores ou operários. Porque não passa só pela ridicularização do outro, mas também pela autoironia. O que eu queria dizer é: eu reconheço que carrego em mim preconceitos em algum lugar inconsciente. Mesmo sendo racionalmente a favor da diversidade, eu carrego este estranhamento. Quando vejo, por exemplo, a Leo e a Aline se beijando, me dá um desconforto.

 

JA: Você não consegue ver o gay como natural?

 

ET: Não é racional, é um sentimento entranhado. Dessa cultura cristã que eu renego, mas que está aqui na minha carne e às vezes aflora de maneiras toscas.

 

LL: O que aconteceu foi uma coisa pequena que acontece milhares de vezes todos os dias. A agressão verbal contra a mulher, que é o mesmo quando um cara grita “gostosa” para você na rua. É muito mais comum do que os homens possam imaginar. Isso é tão normal que ficou invisível, mas carrega uma imposição de poder que não podemos aceitar.

 

JA: Tudo isso foi o que gerou o atrito. Mas eu trouxe este tema de novo por conta da resolução que vocês deram.

 

ET: Na hora a gente se exaltou, ficou todo mundo meio espantado. Daí veio a Jaya e se propôs a fazer uma mediação.

 

LL: Mama Jaya salvou. Foi incrível mesmo. Sentamos ali, embaixo de uma árvore, e ela foi conduzindo para que cada um pudesse dizer o que tinha para dizer. E escutar. Escutar é a grande medicina.

 

ET: Acho que ali nos reconhecemos. Porque a gente se conhecia muito pouco. Conheci a Leo por conta, aqui, dos trabalhos do Grupo UM. Quando o Nadam me convidou no fim do ano passado para fazer parte desta experiência com o grupo, eu não conhecia ninguém. São muitas coisas novas para mim.

 

LL: E fiquei feliz que terminamos com uma coisa propositiva. Eu e o Kide vamos fazer um trabalho juntos.

 

ET: É um desafio mesmo. Eu falei da admiração que tenho pelo desapego com que a Leo lida com imagens.

 

LL: E veio a ideia de fazer este trabalho com pedras e impressões. Seria o rupestre digital, pensando no tema que estamos trabalhando para a exposição.

 

JA: Que é o Rupestre Contemporâneo.

 

ET: Eu estou animado, acho que esta semana podemos fazer muitas coisas.

 

JA: E vai ser algum trabalho que trata destas questões de diversidade sexual?

 

LL: Não. Acho isso foda, também. Porque eu sou gay, tenho de fazer um trabalho gay; se eu sou mulher, meu trabalho tem de ser feminino. Eu sou queer! Esse papo, para mim, é careta e normativo. O trabalho vai ser sobre o que for, vamos descobrir ainda.

 

A conversa é interrompida quando Aline Elias e Nadam Guerra chegam. Todos se cumprimentam.

 

Nadam Guerra: Desculpa a demora. Fomos deixar o Tuan ali embaixo, na casa da Lauzina, e acabamos demorando na conversa mais do que o planejado.

 

Aline Elias: A culpa foi minha; ela ofereceu de mostrar os tanques do trutário, e eu tinha muita curiosidade de ver.

 

JA: Tranquilo. Nós falamos um pouco do conflito entre Leo e Kide, ontem, e do que isso trouxe à tona.

 

ET: Sim, e a Leo disse que é queer. Eu queria saber o que isso quer dizer exatamente.

 

AE: “Estranho”. Queer quer dizer exatamente “estranho”, “anormal”. É esta a tradução. É usado como “gay”. Mas “gay” é uma gíria para “alegre”, e “queer”, para “estranho”.

 

LL: Por exemplo: transexual feminino que nasceu mulher, se veste como homem e fica com homem…

 

AE: É muito mais do que isso. O queer não quer ser normatizado. A teoria queer se interessa por comportamentos não convencionais. Assim como existe um comportamento dominante na nossa cultura que é heteronormativo, também existe uma normatividade homossexual que o queer questiona. A teoria queer vai dizer que gênero é uma construção cultural. Mulher, homem, gay: tudo é uma construção, não existem, biologicamente falando. Então, a oposição entre hétero e homossexual é falsa.

 

LL: Então eu posso ser o que eu quiser, não o que a sociedade ou um grupo querem que eu seja.

 

JA: Muito boa esta síntese. Liberdade! Retornando aos pontos que eu queria trazer, depois desta troca intensa, Leo e Kide decidiram fazer um trabalho juntos.

 

LL: Vamos ver no que isso vai dar…

 

JA: Que, pelo que eu entendi, é algo com a técnica de impressão que a Leo está pesquisando, sobre a qual ela nos contava ontem à noite.

 

ET: Sim, pensamos em fazer uma instalação com pedras impressas.

 

JA: Nos explique como é que se dá esta técnica.

 

LL: Como eu sempre morei no interior e nunca fiz curso de arte, me acostumei a ser sempre meio autodidata. Lendo uma parada num site, vendo um vídeo no Youtube e testando por minha conta. Me interessa a fotografia, mas a fotografia artesanal, primitiva. Os trabalhos que eu mostrei ontem para vocês são todos muito experimentais, não sigo uma receita ou uma técnica. Fui fazendo, testando, criando suposições de como isso funcionaria e seguindo adiante. Misturo umas coisas de serigrafia com um tipo de impressão chamado goma bicromatada, que é do século XIX, com uns lances de fotopolímero e desenho de circuito impresso.

 

JA: Seria a “leoliztipia”?

 

LL: Não tenho a pretensão de criar uma técnica. Estou mais para desinventar. Tenho até uma birra de arte tecnológica, arte digital…

 

JA: Como assim?

 

LL: Quando eu saí de Airuoca para estudar fotografia em São Paulo, me interessei por arte digital. Peguei um trampo de assistente de uma fotógrafa, aprendi muita coisa nessa época. Eu gosto de máquina, engrenagem, de fuçar para descobrir como construir uma coisa. Mas a galera de arte digital é muito chata.

 

ET: Tem vezes que parece que a técnica já é a obra. Que não precisa de conceito; basta eu pôr um sensor de presença que já é arte.

 

LL: Não. O que eu acho foda são esses artistinhas que tem uma ideia, daí contratam alguém para fazer. Conversam uma vez, explicam o que querem, passam dali a um mês e pegam o negócio pronto; daí, no dia seguinte, estão dando palestra como se tivessem feito a programação do trabalho. Lá no Itaú Cultural acontece direto. Fui numa palestra de um artista que ficava falando de Puri Data, e quando eu perguntei um lance, pela resposta dava para ver que a pessoa não tinha a menor ideia de como funciona o Puri Data.

 

ET: E o que é o Puri Data?

 

LL: É uma linguagem de programação interativa para áudio e vídeo. O negócio é que eu pedia para ver a programação e o cara dizia que não podia mostrar, que era o trabalho dele. Mas o Puri Data é software livre. Ele não sabia o que estava usando porque foi outra pessoa que fez o trabalho para ele. Se você diz que está lidando com tecnologia, você tem de saber o mínimo da técnica que está usando. A programação é uma criação também… e, se o seu trabalho se baseia nisso…

 

JA: Certo, mas o artista não é obrigado a saber todas as técnicas envolvidas na sua obra. Pode ter uma ideia e delegar a execução para outros artesãos ou técnicos. Muita gente trabalha assim. Pensando a arte como um trabalho muito mais filosófico que manual.

 

ET: Eu entendo isso mais pelo lado ético. É importante dar os créditos a todos os colaboradores da obra. O artista que se apropria da técnica sem dar os créditos é um falsário. Porque o cinema é uma arte coletiva, então você vê que em todo filme tem os créditos. As artes visuais são supostamente individuais; logo, uma pessoa muitas vezes leva o crédito do trabalho de um grupo. É como se, no filme, só tivesse o crédito do diretor.

 

JA: É verdade; numa exposição coletiva ou numa feira, o que você vê é a etiqueta com o nome de uma pessoa. Mas, quando tem espaço, em uma individual ou num catálogo, entendo que a prática seja citar todos. O que eu vejo na fala da Leo é uma tendência de muitos artistas novos: a de se reapropriarem das técnicas. O que é muito saudável. A imagem do artista que não suja as mãos e que a única ferramenta que sabe usar é o telefone está em crise. Mas não se pode demonizar um artista por contratar um serviço.

 

LL: O lance é que, se você paga alguém, é porque você tem dinheiro. Vira indústria, se afasta da arte. Eu tenho dinheiro, daí pago alguém para pintar por mim para eu produzir mais e ganhar mais dinheiro. Daí eu enriqueço na mais-valia do trabalho que eu estou explorando. É a lógica do capital, que só funciona se eu pago mal. É a mesma coisa em casa: eu quero ter uma casa grande, linda, daí eu preciso de alguém que limpe a casa, que lave os pratos, e eu tenho de ter um trabalho que seja mais bem-pago para sustentar isso.

 

JA: Não entendi. Você é contra contratar alguém para limpar sua casa?

 

LL: Não sou contra nada. O que eu quero dizer é que é a mesma coisa contratar para limpar ou para pintar um quadro. É um funcionário. E se paga mal, tem de reclamar. É a mesma luta de classes. Só que a galera não reclama porque é legal trabalhar no ateliê do artista, ele é brother. Então fica caladinho e, se alguém pergunta se você ajudou a pintar o quadro, só balança a cabeça e não diz que pintou o quadro sozinho.

 

JA: O que você está questionando são as relações de trabalho? A exploração?

 

ET: E também a hierarquia. Se um é o autor e outro é funcionário, não é uma relação horizontal.

 

NG: A exploração é um dado, mas não anula a qualidade da obra de arte. O cara pode ser um reacionário e ser bom artista.

 

LL: Eu acho que cada um tem de lavar a sua louça. É uma postura política.

 

NG: Pode ser. Mas a desmaterialização da arte e a desvinculação entre arte e técnica foi uma conquista. É uma liberdade muito grande a que temos hoje. A arte não está mais no material, mas nos conceitos e nas relações. Um gesto pode ser uma obra de arte; uma festa, uma frase, uma correspondência, uma conversa, um jogo, tudo pode ser arte. Para mim, precisamos de uma teoria queer para as artes como a Aline explicava para os gêneros. Hoje, não é preciso seguir uma normatividade nem no gênero, nem nas artes e, eu acrescentaria, nem nas relações de trabalho. Cabe a cada grupo negociar tudo isso a cada momento: relações de trabalho, identidade, estatuto da arte. E nunca chegamos a um ponto de equilíbrio, é sempre provisório.

 

JA: E temos, então, que nos capacitar para tamanha fluidez e parar de exigir segurança e previsibilidade do mundo. Cada um é fluido, o mundo é fluido.

 

O sol já ia alto e estavam todos ansiosos por tocar seus trabalhos. Interrompemos as conversas neste ponto do fluxo.

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