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Noites

NOITES

(publicado no livro Materializador de sonhos que acompanha o baralho de tarô desta obra. escrito a partir de fragmentos de 50 senhos que me contaram e que eu materializei)

NOITE 1

Hoje sou uma pessoa totalmente nova. Em nada me pareço com o que eu teria sido até ontem. Respiro fundo sentindo minha superfície interna. Olho no espelho. Toco o peito tateando a pele. Tento encontrar alguma semelhança com a pessoa que teria habitado aqui até pouco tempo. Vasculho as memórias como quem vê filmes antigos. Tento em vão encontrar algo que foi e que tenha permanecido.

Nada.

Sou outro.

Olho minhas mãos. Com ela crio também outras realidades. São as mãos que comunicam. O pastor prega com palavras fortes, mas suas mãos é que tocam o coração da platéia. Não consigo escutar o que ele diz e não me importa. Vejo apenas os gestos e está tudo dito.

Como ele pode influenciar tanta gente de uma só vez?” me pergunta a amiga terapeuta e completa “Eu consigo falar apenas com uma pessoa por vez.” Ela toca com delicadeza minha nuca e entendo o que quer dizer. Fecho os olhos e em silêncio respondo permitindo que minha coluna se reposicione.

Abro os olhos e estou sozinho em uma casa estranha. Onde estão todos? Escuto um chamado silencioso. É noite. Saio da casa descendo por um gramado escorregadio. Avisto uma pequena casa de madeira e vidro. Está escuro, mas algo dentro dela me faz prever uma luz. Me aproximo. No centro da casa um pedestal com um enorme livro. Vou sendo atraído por ele. O livro está aberto. Na página da direita uma gravura com a imagem de demônios em uma floresta. À esquerda o título “1263” escrito em letras grandes e o texto conta de como os demônios foram soltos na terra. Percebo que o livro conta tudo que já aconteceu e que revela muitos segredos. Folheando o livro vejo que revela também detalhes do futuro. Preciso fazer com que mais gente saiba. Como pode estar oculto por tanto tempo?

Precinto que alguém esta chegando. Preciso sair antes que me descubram. Abraço o livro e o levo comigo. Não sei como voltar para casa. Entro em um carro e saio guiando rápido pela estrada desconhecia. Preciso encontrar alguém que me ajude a revelar a verdade.

Olho pela janela do carro e vejo que o chão está se afastando. Aliviado penso que consegui fugir a tempo. Mas onde estou? Fico olhando pela janela. Vôo por cima da floresta. Fico contemplando um grande rio que serpenteia lá em baixo. Quando volto meu olhar para dentro do carro percebo que estou em uma van. Ao meu lado uma senhora idosa resmunga. O motorista avisa que estamos sobrevoando as ilhas Cagarras. O sol rebate no mar. Levanto para tentar olhar melhor a vista. Entramos em uma turbulência e acabo caindo no chão do corredor do avião. Fico tentando me levantar. O piloto avisa que vamos tentar um pouso forçado em uma pista de 30 centímetros. Percebo o risco que isso pode representar, mas ele corrige. “Uma pista de 30 quilômetros.” Entendo que a pista deve ser de 30 metros e que vai dar tudo certo.

A van pousa suavemente. Olho no meu bolso discretamente. O livro continua comigo. Tenho que coloca-lo em um local seguro.

NOITE 2

Tudo que vemos acordados ou dormindo existe. Dado que o inexistente não existe. E tudo que existe sempre existiu e sempre existirá. E este todo contínuo que existe, existiu, existirá está intricado em uma rede interminável de sintonias e sincronicidades de forma que se puxarmos uma pontinha somos levados a todo resto. Assim ao contrário do que se possa imaginar toda esta infinidade e complexidade está eternamente disponível agora. Em outras palavras, o vasto universo esta sempre conosco e não importa quão longe almejemos chegar, basta dar um passo em qualquer direção e lá estaremos.

Eu estava na cozinha preparando o jantar quando vi entrar pela janela duas pequenas esferas luminosas. Elas pairavam e brincavam na minha frente fazendo estranhos zunidos. Fiquei admirando a dança de luzes até que as elas começaram a crescer e crescer até não caberem mais na cozinha e saíram ligeiras pela janela. Corri atrás delas e me debrucei no parapeito. Olhando no céu descobri que as esferas eram na verdade duas luas. Elas seguiram em direção ao sol que já se punha. Contemplei o beleza das duas luas girando lentamente em torno do sol no horizonte dourado até que uma escondeu a outra.

Quis muito saber o que aconteceria com a outra lua ocultada. Corri e me atirei pela janela em um vôo desesperado. Fui subindo alto e mais alto tentando alcançar o horizonte. Cheguei ao topo da montanha mais alta onde cresce a maior das árvores. Segui voando rente ao tronco. Passei por toda espécie de pássaro, inseto e animal que nela habitavam. Subi cada vez mais e a árvore parecia não ter fim.

Finalmente quando alcanço o topo da árvore já não vejo as luas. Vejo apenas uma porta que flutua no firmamento. Parece ser a única saída.

Abro e entro em um corredor desabitado. Sigo por entre arcos e colunas que me levam por uma série de salas até que chego em um salão onde carteiras estão dispostas em círculo como que para uma performance. Sento. Logo se escuta um ruído alto e começa o espetáculo. Corpos de homens nus são jogados do telhado e vão formando um novo círculo no meio das carteiras. Parecem mortos mas mantêm a vitalidade. Olho para o alto do telhado para entender de onde vêem os corpos. Há um buraco no telhado que deixa ver o céu. Avisto novamente objetos voadores se aproximando.  É um círculo de palmeiras voadoras que gira e passa bem perto de mim. Seguro em uma delas. Saio pelo buraco do teto e sou levado até as esferas de luz.

Sinto um enorme bem estar. A esfera de luz colorida está parada e de dentro dela surgem seres que montam de pé sobre pequenos elefantes. Eles se aproximam de mim. Fico assustado. Depois de tanto tempo perseguindo as esferas já não sei porque queria tanto encontrá-las. Um dos seres aponta para meu joelho e depois para o meu pescoço.

Curar joelho e pescoço” Balbucia o ser de luz. Sinto um alívio imediato. Sem falar, peço ajuda para voltar para casa. Antes de eu terminar o pensamento já estou de volta ao jardim ao lado de casa.

NOITE 3

Mas onde estão todos?”

Um homem se aproxima e me responde.

Não sei quem você está procurando. Neste forno está a minha avó.” E me aponta uma portinhola de metal no barranco. Abre a porta e ainda se pode ver alguns ossos queimando.

Você está sozinho aqui?” Pergunto.

Sim, minha mulher me deixou. Agora eu cuido de queimar os restos.”

Você ainda a ama?”

Um amor nunca acaba,” ele responde enquanto descemos a rua. “O que acontece é que as relações às vezes ficam inviáveis. Mas o amor nunca acaba.”

Ele se afasta cavalgando. Reparando bem percebo que não está montado sobre o cavalo, mas que é metade homem metade cavalo. Resolvo seguí-lo entrando na floresta. Começamos a ouvir gritos de sofrimento. Ele cavalga mais rápido. Eu me apresso, mas o perco de vista. Vou seguindo os sons dos gritos que se misturam ao som de um canto em língua desconhecida. Chego a uma clareira no meio da mata. Paro impressionado com a cena. Dezenas de pessoas formam uma roda cantando em transe enquanto no centro homens e mulheres ensanguentados se arrastam. Fico inebriado pela música e minha percepção do mundo começa a se ampliar. Uma luz emana de cada um dos que canta. As árvores ajudam balançando as folhas. Me junto a roda cantando como se soubesse a canção a muitas vidas. Os feridos vão se recuperando um a um. Se levantam, sorriem e vão se juntando a nós no canto que soa cada vez mais forte. Meu corpo fica leve e começa a flutuar. Outros também me acompanham levitando. Fecho os olhos e já não sinto o contorno de meu corpo.

Quando abro os olho estou sozinho diante de um abismo.

Sei que posso voar. Dou um salto tentando alcançar uma montanha que vejo distante. Por medo de altura ou por reflexo, fecho os olhos no meio do salto. Quando reabro os olhos estou de volta no mesmo lugar. Corro mais rápido e salto de novo. E novamente estou a margem do precipício. Salto tantas vezes sem nunca sair do lugar. Até que decido não abrir mais os olhos. Salto na escuridão e sinto meus pés tateando nuvens. Escuto o barulho de trovões. Por entre as pálpebras sinto a luz dos raios. A chuva cai e me molha. Sigo com os olhos fechados sem saber para onde estou indo.

Uma voz me diz: “Me dê a mão” e obedeço. O chão vai se tornando mais sólido sob meus pés. Percebo que estou em uma longa fila de mãos dadas. Espero que quem estiver na frente saiba como sair da escuridão. Tento abrir os olhos, mas percebo que em cada tentativa apareço sozinho em um lugar diferente. Fecho os olhos rápidos com medo de me perder da fila indiana. Imagino que juntos será mais fácil encontrar uma saída.

NOITE 4

Enfrentei a escuridão até chegar a passagem estreita por onde é preciso besuntar o corpo de óleo para escorregar por entre as paredes dos despenhadeiro. Lá, apenas um passa por vez.

Finalmente sinto confiança para abrir os olhos. É de manhã. Não sei ao certo onde estou. Estou deitado sobre uma cama macia olhando o teto. Tento me virar, mas meus músculos não respondem. Movo as pernas para  alto. O que aconteceu com meu corpo? Porque não responde a minha vontade?

Olho para minha mão. Dizem que se você quer descobrir se um sonho é verdadeiro o que tem a fazer é olhar pra sua mão. A minha está gorda e enrugada. É uma mão pequena de bebê.

Então é assim que acontece? Nasci de novo e voltei a ser bebê. Um novo corpo. E agora devo apagar todas as memórias e começar tudo de novo. Devo esquecer todos os segredos do livro e apagar as esferas de luz. Será que um dia vou lembrar da música da floresta? O que importa? Tenho de aprender tudo de novo. Como este corpo funciona. Como se faz para levantar com esta cabeça pesada. Para se mover com esta barriga grande. O que fazer com estes dois pênis.

Será que há algo errado comigo!? Tenho dois pênis?”

Se com um eu era homem. Agora com dois devo ser uma menina. Que ótimo! Sempre quis ser uma menina.

NOITE 5

Coloco o biquíni e vamos para a praia. Gosto de brincar na areia. No mar, só vou na beira que as ondas grandes que me assustam. Corro fugindo das ondas e volto correndo para enfrentá-las. Corro até o fim da praia, onde meus pais já não podem me ver.

Subo na colina de onde há um forte abandonado com uma torre de pedra. Daqui se pode ver a praia toda e os barcos chegando perto do píer para ancorar. Há muitos navios de guerra, um porta-aviões e vários veleiros. No centro da enseada há a embarcação mais bonita que não sei o que é. Deve ser uma máquina de guerra também. Parece uma torre de barris gigantes sobre o casco de um cargueiro.

Decido ir um pouco além na colina até chegar no rio grande. Passo por uma área de pedras onde brinco de pular de uma para a outra. Nado nas corredeiras contra a corrente. Sinto um cansaço gostoso e procuro um lugar  para descansar.

No canto do rio encontro uma pequena caverna onde caibo exatamente. Sento e minha cabeça toca o teto da gruta, fecho os olhos e medito escutando o barulho do rio. Quando abro os olhos percebo um menino sentado ao meu lado na gruta. Ele me olha, sorri e me entrega um envelope. Depois mergulha no rio e desaparece. Dentro do envelope um poema:

o caminho é o destino.

Venta tudo.

Os flexíveis se dobram

os rígidos tremem.

Isso também passará.”

Leio algumas vezes os versos. A tarde cai. Já é hora de partir. Desço por uma trilha que leva ao povoado. A rua está vazia. Sei que um lobo me segue. Não sei onde ele está. Sinto o brilho amarelo dos seus olhos sobre mim. Ele se aproxima. Assustada, aperto o passo pegando a estrada que sai do povoado. Caminho toda a noite sem nunca ver o lobo. Só no amanhecer que consigo perceber quem me segue. É o meu namorado. Ao era. Ele agora está envelhecido e gordo. Continuo a viagem e permito que ele se aproxime, mas não olho pra ele que me causa pena e desgosto ver o seu estado. Descemos a serra até a casa do meu pai. Deixo ele com meu pai que assim ele ficará mais seguro.

Tenho se seguir a viagem por outros caminhos pois pela estrada se tarda muito. Perto da casa há uma cascata onde está a entrada. Mergulho no lago da cascata em direção as profundezas. Conforme mergulho mais profundo o mar vai ficando mais escuro. Vasculho o fundo por entre corais e rochedos. Finalmente encontro! Um grande dragão dormindo enroscado como um gato no fundo do oceano. Na sua garra um anel brilhante como a lua. Os dragões dormem todo o dia e só se despertam de noite. Tenho que aproveitar enquanto ele dorme para pegar o anel. Me aproximo lentamente, mas as ondulações do mar fazem com que ele acorde. Nado rápido para cima. Escuto apenas o rugido do dragão vindo atrás de mim procuro a saída mais próxima.

Saio sobre em uma caixa d’água no alto de um prédio no centro de uma grande cidade. Não sei onde estou. Fico com medo de me perder se me aventurar na noite desta cidade estranha. Tenho de esperar aqui por toda a noite. Escuto vindo das águas os gritos estridentes do dragão. Chove. Permaneço imóvel no alto do prédio até amanhecer quando espero ter uma nova chance.

No dia seguinte, desço do prédio. Procuro uma nova passagem. vejo uma poça de água na calçada. É aqui. Por ela posso mergulhar novamente. Encontro o dragão dormindo sobre uma pedra o anel está na garra que pende a sua frente. Como uma brisa passo rente a ele e o anel desliza até a minha mão. Nado o mais rápido que posso e perece que o dragão nem percebeu o meu truque. Emirjo triunfante na cascata próxima a casa de meu pai.

Vitória!

NOITE 6

Tudo é uma questão de disposição interna. Os sentimentos tem ancoras externas nas quais nos agarramos, mas a maior parte do que sentimos vem de nós mesmos. Me recosto na rede apreciando a vista. Agora sou rainha, minha palavra é lei. O reinado é pequeno e todo espaço tem de ser muito bem aproveitado. A parede de uma casa deve ser aproveitada para servir também de parede a casa vizinha. Um teto de pode servir para ser chão de uma outra casa ou se for muito frágil pode ser ao menos apoio para alguns canteiros de horta.

Um visitante nobre chega do estrangeiro e o levo para mostrar os arredores.

Tudo que se pode ver daqui até o horizonte e mais além é parte do meu reinado.” O visitante parece não estar muito impressionado. Pergunto o que há de errado.

Seu reino é uma favela?” ele responde perguntando.

Ecofavela,” respondo a contragosto “repare as árvores que fraternalmente cultivamos.”

A conversa termina aí. Paro de prestar atenção ao visitante que vai ficando para traz. Estou ofendida. É assim que se retribui a hospitalidade? Não me sinto diminuída em minha majestade. Sei do valor do reino e o respeito que tenho dos meus súditos. Uso o anel do dragão. Sei de tudo que passei par chegar até onde estou. Construí este reino e aqui cultivo paz e harmonia. Quando me viro para ver o visitante está se transformando em um monstro enorme. Fujo e ele corre atrás de mim. Não tenho como enfrentá-lo, ele deve ter vinte vezes a minha força. Entro pelas vielas da favela e me escondo em casa. Acho que consegui despistá-lo. Deito na cama e durmo. No meio da noite percebo a porta abrindo. Será o monstro? Ou o amor que abandonei? Não me levanto. A porta volta a se fechar. O visitante foi embora.

NOITE 7

O tempo vai passando os jovens já são outros. As transformações vão se acumulando. O que foi raro hoje é ordinário e o que foi banal ontem é hoje raridade. Giramos, giramos e estamos no mesmo lugar. Entro no carro. Saio pela rua. Quero ir a algum lugar diferente. O mundo me entedia. Sigo o asfalto até uma estrada e depois outra. Acelero para sentir o vento mais forte nos cabelos.

É em uma curva que encontro o caminhão que colide com o carro.

Um clarão instantâneo e aquele corpo de longos cabelos ao vento fica para trás. Não sinto nem dor nem dó. Apenas sigo em alta velocidade pelos ares aproveitando o vento e a luz.

É carnaval e sigo por entre sambas e avenidas. Entro em um bloco e experimento ser um boneco. Brinco, vibro e sigo. Só quando minha velocidade vai diminuindo vou me dando conta que não tenho mais onde ir. Sem corpo, sem vida. Sem problemas e sem alegrias. Paro em um saguão de aeroporto contemplando as malas que vão e vem.

Para onde ir? Não devo estar aqui. Fecho os olhos e relembro tantas coisas. Das esferas coloridas, os seres de luz. De olhos fechados tateio com os pés uma escada. Subo sem saber onde estou indo.

Coloco as mãos no bolso e lá está o grande livro. Com ele posso saber tudo que vai acontecer. Folheio rápido buscando o dia de hoje e … sim! Hoje é o dia do tsunami carioca!

Pode ser uma grande tragédia, mas será inesquecível! Pego uma prancha de surf e vou para  a praia de Botafogo. Chego bem no momento da grande onda. No trânsito pessoas desesperadas. No mar como eu outros aproveitam o que será talvez a última onda de cada um. A onda cresce mais alta que os prédios. A prancha é levada nas alturas e vai em direção a cidade. Antes do momento final abandono a onda. Aproveito que já não tenho corpo e vôo para longe.

Começo a gostar de estar sem corpo. Talvez eu seja um anjo. Voando baixo, passo a noite ajudando os que precisam. Muitos ficaram sem casa. Outros perderam parentes. Apenas vôo por cima deles e suas mentes se clareiam.

A madrugada já vai amanhecer quando vejo a luz de um novo clarão. Um cristal reluz a minha frente. Sou sugada por ele. Uma espiral de luz me desfaz e me remonta. Em um esguicho de luz como um raio sou expelido do cristal para a terra. Sinto meu corpo sendo formado. Volto a ter carne. Contorno. Volume. Superfície.

NOITE 8

O teto é alto sobre a minha cabeça. Estou deitado com as consta sobre o piso em uma grande arena. Numa área escura não muito próxima o público na arquibancada me olha em silêncio. Não digo nada, apenas tento entender que corpo é este. Sou novamente homem. Sinto que tenho força nos músculos, mas permaneço imóvel.

A terapeuta segura minha coxa com toque que me conta coisas sobre mim mesmo. Me faz ver como é bom ser matéria, ter um corpo. Ela rotaciona lentamente minha articulação coxofemural. O público se aproxima de nós. Os movimentos se intensificam. Sinto crescer os ossos por dentro da carne e o poder emanar por todo corpo. Levanto como se esta fosse a primeira vez. Me movo deslumbrado em como pode tamanha complexidade de forças e massas se equilibrar resultando em uma caminhada. Sob aplausos, saio triunfante da arena. Tomo a rampa que sai do estádio. Há um buraco na parede por onde caem muitas notas de 20 euros. Não sei de onde elas vem recolho algumas antes que o vento as leve. Continuo descendo a rampa e saio do estádio.

Estou em uma planície que se estende até o horizonte. Há dois caminhos paralelos com calçamento de pedra que atravessam o campo desabitado e parecem levar à mansão onde devo ir. Não sei que caminho tomar. Às margens dos caminhos não há casas sem pessoas a quem perguntar. Escolho caminhar pela grama no espaço entre os caminhos, assim não me perco de nenhum dos dois. Conforme avanço a vegetação vai ficando maior e o terreno alagadiço dificultando a passagem. Com o mato alto, mal posso ver se estou indo na direção certa. Por entre as folhas acho uma porta de uma casa subterrânea. Entro e encontro minha namorada. Há quanto tempo não nos vemos? Ela me acaricia com o pé. Fico excitado. Tiro a roupa e faço sexo com seu pé.

Ficamos abraçados num canto da sala nos acariciando. Quero mais, mas ela não quer. No meio da noite chega a dona da casa que passa por nós sem dizer nada e vai dormir sozinha no quarto.

Estou quase cochilando quando escuto um barulho. O teto da casa parece que vai desabar. O teto vai se abrindo e vejo o céu. Corro para fora a tempo de me salvar. Não vejo nem minha namorada nem a dona da casa. Será que elas estão nos escombros? Busco por entre as telhas e madeiras do telhado. Finalmente a avisto de longe. Ela faz o parto de nossa filha. Não consigo me aproximar pois há enorme buraco entre nós. Dou uma volta por traz de um monte de entulho e quando novamente me aproximo elas sumiram.

Volto a vagar por entre o matagal. Busco em vão encontrar um dos dois caminhos paralelos. Depois de quase um dia de caminhada encontro uma mansão. Será esta a mesma que eu procurava? A casa é muito elegante. A porta está aberta e entro sem que ninguém fale comigo. Estão dando uma festa. Pessoas bem vestidas conversam risonhas perto da piscina. Garçons servem comida e bebida aos convidados. Passo por entre as pessoas no jardim. Ninguém me olha e também não reconheço ninguém. Não era aqui que eu deveria estar.

Mergulho na piscina. A  água morna e muito agradável cai de uma cascata logo junto a casa e segue pela piscina que cruza o jardim. Nado seguindo a piscina que deságua num rio. Soam trovões e começa a cair um temporal. Fortes ventos agitam a água. Tento me segurar em galhos à margem, mas  a correnteza é muito forte. Sou levado até o fundo da Baia de Guanabara. Em meio a enxurrada um bando de pinguins passa por mim. Desconfio que há algo de errado com estas aves e atiro um sapato que atinge um deles. O pinguim se abre ao meio e de dentro dele saem meia dúzia de ets de cabeça comprida que caem na água. Os pinguins são na verdade naves espaciais disfarçadas. Tento acertar outras naves, mas eles estão em superioridade numérica e não há como vencê-los. Alguns ets entram em uma pequena canoa e vem em minha direção. Mergulho para fugir. Nado até chegar a um deck de madeira. Parece que estou a salvo. Estou tonto e deito para descansar.

NOITE 9

O mar tremula com a brisa do amanhecer. Sem ondas o mar é um imenso plano sem fim se estendendo para todos os lados até o horizonte. Salto e vôo rente a superfície da água que reflete os primeiros raios de sol. Me deleito com os respingos de água no rosto.

Chego a uma praia selvagem. Caminho pela arreia. Encontro uma fogueira apagada com a brasa ainda viva. Logo adiante minha namorada dorme abraçada a outro homem. O sangue sobe à minha cabeça. Ele acorda bruscamente como que pressentindo a minha presença. Vou falar com ele. Discutimos. Minha namorada acorda e tenta acalmar os ânimos. Nós não respondemos. Das ofensas passamos a luta corporal. Rolamos na areia por cima da fogueira entre socos e chutes. Ele puxa uma faca. Me defendo com um pau da fogueira. Nossos corpos estão suados e imundos de arreia e carvão. Em um lance acerto o adversário na cabeça e ele cai desacordado.

Me assusto. Fujo correndo para a montanha. O único caminho é escalando as pedras.

A subida é árdua e o sol está alto. Ao menos as pedras são rendadas facilitando a jornada. Reparando bem estou escalando a colcha de renda que cobria a cama da minha mãe quando eu era criança.

Subo pelas pedras macias. Estou no topo. Começo a dançar e vou descendo para o outro lado da ilha pulando de pedra em pedra. Me sinto cada vez mais leve e conforme me aproximo novamente da praia as pedras se tornam hipopótamos que me acompanham com seus passos lentos.

O dia foi longo. Decido voltar pra casa e no caminho passo pelo terreiro da Mãe Benta para me benzer. Ela queima um incenso a minha volta. Me recomenda um banho de ervas.

Chego em casa. Ainda estou preocupado com o cara que deixei na praia. Minha intenção não era machucá-lo. Ou melhor, não sei qual era minha intenção, mas não queria que chegasse neste ponto. Será que ele está bem? Reluto em voltar para praia.

Escuto um rugido de leão. Ele está preso na área de serviço. Tenho de manter a porta bem fechada. O leão tenta passar pelo basculante arranhando o vidro. Uma hora vou ter de soltá-lo. Mas não agora. Tomo o banho de ervas e vou dormir.

NOITE 10

Da migração não há volta. Como não se pode voltar a ser virgem, não se pode deixar de ser estrangeiro.

Acordo sem saber de que sonho. Tem coisas que não sei como resolver. Talvez porque não devam ser resolvidas ou não tenham mesmo solução.

Mas o que importa? Está um lindo dia. Visto meu traje mais elegante. Arrasto o piano de cauda até a beira da praia. Toco músicas que a inspiração me traz. Sou transportado a um espaço sem porquês ou pra quês. Só a música importa. A maré vem subindo e as ondas molham meus pés. A água gelada me lembra outras músicas de carnavais distantes. Sigo o concerto no compasso dos estrondos das ondas que batem no piano e me respingam no rosto. A música não pode parar. Eu sei disso. O piano sabe disso. E o mar mesmo que inconscientemente também sabe disso e nos cobre sem emudecer o piano. Seguimos tocando mesmo quando as ondas nos cobrem por completo. Finalmente o piano desaparece em uma onda mais forte. Eu fico na beira da praia. A música continua soando dentro de mim. Danço. Percebo que se eu consigo dançar mais próximo do plano horizontal o empuxo do ar é maior e pode vencer a gravidade e me fazer levitar. É uma técnica sofisticada. É preciso praticar. Sigo dançando, uma hora vou conseguir.

No horizonte contemplo os bois voadores se afastando.

O sol se põe.

A música toca.

Eu danço.

Os bois podem voar.

Eu também posso.

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