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Porque as rúculas atravessaram o deserto

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Porque as rúculas atravessaram o deserto

 

 

Tema inicial

 

Uma Rúcula

Um boi

Um grão de trigo

Cama de arame

Casa de marimbondo

Uma rúcula leva 21 dias para germinar

As rúculas preferem os dias frios e chuvosos

Bois preferem dias nublados

e para eles um pasto não é um deserto.

 

Cena 1

Rúcula Roxa era seu nome. Não conhecera seus pais. Quando germinou, eles já haviam virado salada. O nome ela recebeu diretamente de Deus e não sabia o motivo, pois como todas as outras rúculas ela era verde.

“Todas as rúculas são muito parecidas”, pensou, “Mesmo a Rainha das Rúculas imponente no seu canteiro não é muito diferente das demais.”

Com apenas poucos dias de broto, Rúcula Roxa já era chagada à certa filosofia. “Tenho que ser rápida. Nesses canteiros uma rúcula não vive mais do que 12 ou 15 semanas.”

“Plantas não andam.” ouviu uma companheira dizer. “Não há como ser rápida.”

 

Cena 2

Meia noite, lua cheia.

Rúcula Roxa viu o brilho da lua refletida sobre um grão de trigo gerando o reflexo de uma carruagem.

Todas as outras dormiam.

Ela olhou para um lado. Olhou para o outro.

Saltou sobre a carruagem e fugiu para dentro da noite.

Correu horta.

Correu mata.

Atravessou estradas.

Perfurou nuvens.

Então o dia foi nascendo e o brilho da lua se apagou.

A carruagem se apagou.

Rúcula Roxa estava agora em um monte alto onde nenhuma rúcula jamais pisara.

Olhou em volta viu apenas colinas vazias que seguiam até o horizonte.

Sozinha com seu grão de trigo no alto da colina, Rúcula Roxa achou que não teria mais salvação. Teria que fincar raízes no chão seco.

Restava-lhe um dia de vida, quem sabe dois.

O sol vinha surgindo e projetava do grão de trigo  a sombra de uma enorme vara. Com isso Rúcula lembrou das olimpíadas e usou a vara para saltar por cima das colinas. Pegou uma carona no vento e planou por sobre vales.

O que pode fazer uma rúcula sozinha?

Se o sol for muito forte, ela murcha. Se o vento for muito intenso ela se despedaça.

 

Cena 3

Rúcula Roxa aterrissou  na terra maravilhosa dos índios Tucupu. Escondeu-se na sombra de uma árvore e ficou a espreitar os Tucupu em um de seus rituais mais luxuriosos, a dança sagrada da manga. Cerca de trinta Tucupus dançavam nus ao redor da grande mangueira sagrada. Entoavam canções ao Deus Manga, chupavam e se deleitando com as mangas colhidas ali mesmo. Lambuzavam uns aos outros com o suco alaranjado. Embriagados e em êxtase, os índios se lambiam dançando  as cantigas ancestrais.

Rúcula Roxa se aproximou cautelosamente desviando dos pés dos Tucupus que de tão entretidos na sensualidade da dança não notaram que ela se colocou junto ao tronco da mangueira mãe.

Rúcula Roxa sorveu aquele caldo que se espalhava pelo chão de suor, manga e fluidos sexuais. Conforme absorvia o caldo, ela crescia e suas folhas ganhavam um tom alaranjado.

A dança continuava e alguns Tucupus começavam a  cair desmaiados no chão. Logo todos estavam deitados uns sobre os outros.

Rúcula Roxa teve de subir na mangueira para não ser esmagada.

 

Cena 4

Rúcula Roxa agora era mais forte que qualquer outra rúcula. Crescera e tinha 70 centímetros de altura. Era uma super rúcula. Passou 3 dias sentada nos galhos da mangueira se escondendo entre as folhagens.

Um belo jovem Tucupu vinha todas as tarde regar a Mangueira Mãe. Seu nome era Tuã. Foi ele que descobriu Rúcula Roxa. Os dois se olharam e Rúcula sentiu algo que nunca havia sentido antes. Tuã era moreno com longos cabelos índios e olhos negros profundos. Rúcula sentiu que ele a olhava de uma maneira estranha. Não teve medo, mas uma agitação no interior de seu bulbo.

Tuã a retirou da mangueira com delicadeza e acariciou suas folhas. Levou as folhas ao rosto para sentir a textura com as bochechas. Rúcula se arrepiou até o último fio de raiz.

Ele a levou até sua oca e a colocou em um vaso decorado com pedras coloridas. Depois a regou em um banho de ervas aromáticas.

 

Cena 5

Como pode um vegetal amar um homem?

Como transpor tamanha diferença?

O povo Tucupu sabia amar os vegetais.

Toda sua sabedoria e mitologia era baseada nos deuses vegetais.

E Tuã, guardião da Mangueira Mãe, sabia mais do que ninguém o que é amar um vegetal. Quando viu Rúcula Roxa soube que ele era uma planta especial. Por sua beleza exótica e por ela ter escolhido a mangueira sagrada como abrigo.

Tuã regava Rúcula Roxa duas vezes por dia e a alimentava com humos de cabrito silvestre e suco de mangas sagradas. Massageava as folhas e a olhava com uma paixão que coravam os talos de Rúcula Roxa. Ela por sua vez agradecia balançando as folhas em uma dança sensual.

Após alguns dias de namoro, Tuã decidiu fazer de Rúcula sua esposa. Declarou todo seu amor em uma canção apaixonada. Na melodia suave, ele jurava fidelidade e amor e que a faria feliz se ela lhe aceitasse como marido.

As rúculas entendem a língua dos homens. Mas não tendo a capacidade de falar, Rúcula apenas balançou as folhas positivamente.

E eles se casaram.

 

Cena 6

Tuã e Rúcula Roxa fizeram amor por 3 dias e 3 noites de maneiras que nenhum homem ou rúcula jamais sonhou. Tuã a tocava com suavidade, cuidando para não machucar as folhas densas de Rúcula Roxa. Ela envolvia em suas folhagens absorvendo-o. Tuã mordiscava as pontas das folhas levando-a ao êxtase. Com os movimentos ritmados dos animais e a fluidez dos vegetais, o casal experimentou o prazer além de todas as espécies.

Depois de tamanho envolvimento, os dois caíram em um sono profundo e recompensador emaranhados um no outro.

Sorriam.

 

Cena 7

Ainda extasiada e exausta, Rúcula acordou com seu amado lavando docemente suas folhas com um pano úmido. Ele retirou as sementes que se formaram durante a noite e colocou em uma sementeira especial.

“É hoje” disse Tuã com a simplicidade que têm os Tucupu.

Rúcula sem entender viu seu marido trazer uma grande bacia de madeira com mangas picadas e amêndoas. Era hora de outro ritual Tucupu, o rito de oferecer a esposa vegetal em banquete para toda tribo. Entoando cantigas milenares de dor, devoção e prazer, Tuã picou as folhas fortes e alaranjadas de Rúcula Roxa, a maior rúcula já vista, um vegetal realmente especial. Conforme picava e cantava, lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Atendendo a música, os outros Tucupus vinham chegando e formando um círculo ao redor de Tuã e Rúcula Roxa. Então todos cantam junto com Tuã enquanto ele mistura Rúcula com manga e amêndoas.

Cantando e dançando sempre, os Tucupu devoraram Rúcula Roxa em um ritmo sagrado.

 

Epílogo

Uma das sementes de Rúcula e Tuã brotou a tempo de sua mãe sendo devorada pela tribo de seu pai.

Por sorte, certas sementes têm memória. E o grão de trigo se lembrou de socorrer a prole de sua amiga. À luz da fogueira dos Tucupus ele transformou-se em um pássaro que levou o jovem Broto e suas irmãs Sementes para uma floresta além do deserto.

 

Nadam Guerra

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