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Performance, arte e ofício

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1980
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Performance, arte e ofício

 

por Nadam Guerra (publicado na revista Seiva – diálogos de arte e ofício)

 

 

Bom dia a todos. Grato pelo convite para apresentar aqui em Belém, na Fundação Curro Velho neste projeto Seiva, diálogos de arte e ofício.

O título desta palestra é um pouco traiçoeiro. Performance, arte e ofício são 3 palavras de significado duvidoso e que podem se referir a coisas muitos diferentes. Acho que o traz vocês aqui é a questão da performance como arte. Que é o tema do curso prático “Objeto Performance”que vou ministrar a partir de amanha aqui no Curro. Peço um pouco de paciência porque para expor o que acredito ser performance antes vou contextualizar um pouco arte e ofício.

Primeiramente queria relembrar a origem destes conceitos. Quando falamos “Arte” imaginamos que é uma coisa que existe e sempre existiu, mas na verdade é relativamente recente o entendimento de Arte que temos hoje. Nas civilizações antigas ou primitivas não existia a noção de representação, da arte imitar a natureza. O que existia era uma relação que hoje poderíamos chamar de mágica. As pinturas nas cavernas de cenas de caçadas não seriam relatos de evento reais ocorridos, mas a preparação mágica para a caçada. Ou outro exemplo, os bonecos de vodu não são retratos, mas maneiras de acessar as pessoas reais através de sua imagem. Representação = real. Arte = vida. Esta é a estrutura que vai existir por milhares de anos e ainda hoje está presente de alguma forma no imaginário humano por exemplo nas religiões. Na missa católica se toma o vinho e o pão que são (não representam) o sangue e o corpo de cristo. Nos ritos afro brasileiros a corporificação das deidades não podem ser simplificados em apenas teatralização.

Na Grécia antiga é que vai surgir junto com a filosofia (e tudo isso que vai definir a civilização ocidental) a idéia da arte imitando a natureza. Os gregos dividiam esta imitação em duas categorias bem diferentes:

1) tékne (que corresponde a palavra latina artis) para designar todas as técnicas e artes; e

2) póiesis para designar a poesia ou a Arte em sentido estrito.

 

As artes técnicas e todos os ofícios estão hierarquicamente inferiores a poesia por serem meras imitações da realidade ao passo que o poeta se aproxima mais da criação divina. Desta forma, até a idade média, todos os mestre de ofícios tem um estatuto semelhante sejam eles escultores, pintores, fazedores de móveis, construtores, músicos, etc. Todos se utilizam de algum recurso técnico para fazer seu ofício. E sua profissão se baseia em imitar de alguma forma a natureza. E como são todos artesãos imitadores o prestígio de um bom pintor não era superior ao de um bom carpinteiro ou costureiro. Os artistas/artesãos são em grande parte anônimos e não estão preocupados em inovar ou ser originais. A exceção é feita aos poetas que estariam livres da matéria e da técnica e por tanto mais próximos da criação e do estatuto que damos damos hoje a Arte.

No renascimento vemos a transformação desta relação com valorização da inventividade, da individualidade, da inovação. Leonardo Da Vince vai afirmar “arte é coisa mental”. Os artistas: pintores, escultores, músicos são finalmente igualados aos poetas que pensam e criam e não apenas dominam uma técnica e são artesãos. É criado o conceito de belas artes em oposição as artes meramente técnicas, meramente ofícios. Este estatuto do artista (que o aproxima da poiesis, do criador divino) que é capaz de trazer a terra novas formas, sons e imagens faz com a Arte se modifique cada vez mais rápido. Vemos que escolas e movimentos estilístico se sucedem cada vez mais rápido durante os séculos XVI a XIX. Gradualmente a expressão do artista, suas idéias e opiniões vão tomando lugar da natureza como o objeto principal da Arte.

Entendo as vanguardas do séc. XX e o modernismo como uma radicalização desta obsessão ocidental pelo novo. A arte se liberta da natureza e a radicalidade e a ruptura superam muitas vezes o conhecimento técnico do ofício como principal ferramenta dos artistas. O modernismo vai reordenar as artes. Mas na arte moderna, a noção de categorias ou artes definidas por seu repertório técnico continua balizando o entendimento da produção de cultura. Vemos então que o que valida a divindade criadora do artista são suas idéias, mas o que define como artista ainda são suas habilidades em determinada técnica.

Este paradoxo fica claro a partir dos anos 60 com movimentos como arte póvera, arte conceitual, fluxus, performance art. Já não é a materialidade, a técnica ou a forma que define o que é Arte. E sim nosso contexto cultural que entende certo tipo de criação intelectual como provida de um sentido transcendente (ou divino como a poiesis grega). Ou seja, Arte é um contexto funcional e não uma unidade morfológica. O que vai legitimar uma ação ou uma obra é o circuito onde ela se insere e não suas características materiais.

E a performance, onde entra nisso?

Performance é uma palavra muito boa porque já não quer dizer nada. apenas que algo foi feito ao vivo. É usada para máquinas, esportistas e apresentadores de TV. Quando falo performance estou pensando num certo sentido atribuído a atribuído a palavra no senso comun dentro das artes visuais. Mas vimos que na arte contemporânea não é materialidade ou a técnica que vai defini-la. Por tanto não faz sentido pensar que seja mais uma categoria (pintura, gravura) ou mais uma arte (teatro, cinema). Tão pouco seria prudente reduzir este fenômeno a um estilo ou um movimento (dadaismo, futurismo) já que foi um procedimento usado com diferentes propósitos no decorrer da história.

Meus objetivos são práticos e não teóricos. Me interessa a criação. Então não vou tentar depurar e definir um conceito, mas aceitar esta confusão como um é sintoma dos nossos tempos. Ficamos apenas com:

 

Performance = feito ao vivo

 

Arte = fruto de uma criação transcendente

 

É superficial e impreciso, mas é o que temos pra trabalhar: Existe Arte feita ao vivo, performance podem ser ações transcendentes, ou ainda, ações ao vivo podem ter um valor transcendente.

E nós, que somos artistas, como lidamos com isso?

Vivemos um tempo em que já não é preciso ser original. E com o fluxo livre e o amplo acesso à informação que caracteriza a cultura global, também não precisamos importar movimentos ou copiar movimentos para fazê-los presente localmente. Ao mesmo tempo que não temos porque desprezar o conhecimento produzido pela humanidade, os instintos mágicos, os procedimentos miméticos ou os delírios abstratos. Nem ser original, nem copiar, nem a defesa do passado, nem o deslumbre da ruptura. Esta é a posição que nos encontramos.

OK. Então nosso foco não é nem a técnica, nem o assunto e nem a forma. O que nos resta? Parece que temos de nos atentar para nós mesmo a para o que vem ser a criação em si. De onde vem isto que faz o indivíduo se elevar da realidade cotidiana e produzir algo que a transcendente? E isso vale para a performance como vale para qualquer outra modalidade de arte. O que difere a ação comum da ação que gera uma obra de arte?

 

Arte é produzida com Vida.

 

Minha hipótese é que sem uma paixão ou interesse vital do autor por sua obra não se produz Arte. Então a primeira pergunta que faço se você vem ao curso é “O que te interessa?” Todo artista tem de se perguntar isso. Sem este vínculo vital não posso começar a trabalhar com você, pois não tenho nem técnica, nem forma, nem assunto para te dar. Logo em seguida há te pergunto: “O que você quer dizer?” Supondo que se vocês vem ao curso é porque são artistas e querem criar obras. Esta pergunta é uma maneira de focar um pouco mais, ou seja, das coisas que te interessam quais delas você compartilhar com quem está presente com você? Daí o terceiro “dever de casa” vem como consequência: trazer uma proposta de ação/performance que você vai realizar durante o curso.

Então para quem fez a inscrição no curso recebeu estes deveres. Trazer as respostas escritas para as duas perguntas:

“O que te interessa?”

“O que você quer dizer?”

E uma proposta de ação.

E também vir com roupas confortáveis. Iremos fazer atividades físicas, exercícios que acho que podem ser interessantes ou como uma maneira de colocar nossos corpos disponíveis para fazerem ações ao vivo ou como uma experiência corporal para nos aproximarmos do nosso impulso vital, do que nos interessa dizer. São exercícios que fontes diversas: teatro físico, dança, arte conceitual, alguns jogos que eu venho desenvolvendo e meditações contemporâneas. Depois de cada turno de experiências corporais vocês vão apresentar rascunhos das performances de vocês. E eu vou trabalhar sobre o material que vocês trouxerem para tentarmos juntos encontrar melhores estratégias para cada um alcançar sua obra. Na sexta feira teremos uma mostra aberta aqui na Fundação Curro Velho com o que produzirmos que não sei como vai ser, teremos de descobrir juntos.

Voltando ao raciocínio da Arte. Trabalho com ações ao vivo, mas gosto de pensar que esse enfoque pode ser aplicado a qualquer tipo de criação. Inclusive sempre é saudável questionar o meio que estamos utilizando para materializar nossa obra. Gosto de pensar nas obras de Arte em camadas de relações que acontecem simultaneamente independente de ser uma obra mais musical ou performática ou visual. Então temos sempre um autor gerando uma obra que criam relações que vão ser apreciadas por um público. Eu resumiria estas relações em:

– relação da obra com seu autor e o contexto onde se insere – em que medida a obra potencializa e amplifica esta relação;

– relação com o receptor ou público – como e porque o espectador se relaciona com a obra;

– relação com o mundo físico (tempo, espaço) – onde e quando as relações são possíveis no seu grau mais intenso;

– relação com os sentidos (visão, audição, tato, paladar, olfato) – que sentidos a obra privilegia e quais ignora;

– relação narrativa – como a obra fala do mundo e como o mundo fala da obra.

Em todas estas relações o que se busca é a vitalidade. Como ser mais vivo?! Mais do que ligada à qualidade estética, a potência de uma obra vai estar ligada a em que medida consegue ativar a vida destas relações. A começar pela vida do próprio autor. Como esta obra faz o autor mais vivo?

Acho que já extrapolamos um pouco o tempo. E eu falei bastante. Podemos abrir para perguntas. Agradeço novamente a equipe do projeto e a hospitalidade com que me receberam aqui.

 

Obrigado.

 

Palestra no Projeto Seiva no dia 23 de outubro de 2012 na Fundação Curro Velho – Belém, PA.  Texto revisado e adaptado pelo autor

 

 

Sites do artista:

www.grupoum.art.br

desmapas.wordpres.com

 

Bibliografia:

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.

ARGAN, Julio Carlo. História da arte.

BASBAUM, Ricardo. Amo os artistas-etc. In Políticas Institucionais, Práticas Curatoriais, Rodrigo Moura (Org.), Belo Horizonte, Museu de Arte da Pampulha, 2005.

COCCHIARALE, Fernando. Quem tem medo da arte contemporânea. Ed. Massangana

DANTO, Arthur C. A transfiguração do lugar-comum. São Paulo: CosacNaify, 2010.

GUERRA, Nadam. Muito além da performance. In catalogo V::E::R, Festival de arte viva. Liberdade, MG: Terra UNA, 2011. disponível em www.terrauna.org.br

NUNES, Benedito. Introdução a filosofia da arte. Ed. Ática, 1999.

WATTERSON, Bill. Calvin e Haroldo – O mundo mágico. São Paulo: Conrad do Brasil

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