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FERREIRA GULLAR entrevista à Revista Zum Zum Zum, 1999

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FERREIRA GULLAR entrevista à Revista Zum Zum Zum, 1999

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por Nadam Guerra, Ericson Pires e Acácia Rios

Esta entrevista foi feita para a edição 6 da Revista Zum Zum Zum em 1999. Estávamos eu, o poeta Ericson Pires e a jornalista Acácia Rios no apartamento de Gullar em Copacabana sentados em torno da mesa de madeira e ao nosso redor as paredes repletas de quadros.

Nos meses seguintes decidimos não mais editar a revista e este material ficou inédito. Eu cheguei mesmo a pensar que estava perdido, mas ano passado organizando o material de outra revista que editei, a Et Cetera, falei com a Acácia e ela tinha salvo esta transcrição. Há alguma imprecisão aqui, não sei se falta algo ao fim do texto que parece terminar abrupto e em algumas perguntas não estava identificado que falava se eu ou Ericson. Mas isso pouco importa. Lembro a sensação de sair à rua depois de ouvir Gullar com sua intensidade e aspereza. Lembro da frustração do Ericson que resmungava que tínhamos de entrevistar os novos, que Gullar já estava gagá, que não era mais o Gullar revolucionário.

Compartilho aqui com algum atraso esta experiência.

Saravá!

Nadam – Essa revista é distribuída principalmente em universidades. Então eu queria saber como você se apresentaria para um estudante de 18 anos que não te conhece.
Gullar – Isso aí eu não sei. Nunca pensei nisso. Acho que as pessoas são como são. Tanto faz se é novo ou velho. Não tem diferença, não. Eu sou uma pessoa determinada, como o vizinho. Me apresento da mesma maneira seja para quem for. Não tenho que me apresentar especialmente.

Nadam – A gente tem sempre festa, lançamento, apresentações de poetas etc. Queria saber como você vê o espaço da poesia falada e da escrita.  
Eu acho que a poesia tá ganhando um pouco mais de espaço. Agora, por exemplo, essa informação que você tá me dando. Eu já tinha essa opinião em função de algumas iniciativas que surgiram: Planetário, Café que toda semana apresenta poetas, espaço Margarida Reis CCBB – recitais de poemas, inclusive eu  já participei de alguns deles… e em outros lugares… Lá na Barra também tem um centro, tem um clube, há jograis que tão se organizando para dizer poesia, quer dizer, então, me parece que há um espaço maior, um interesse maior pela poesia.

Ericson – Mas cê acha que a poesia falada é de alguma forma diferente da poesia que tem que ser escrita?
Certamente algumas pessoas podem se especializar em dizer poesia e, nesse caso, ela adotará essa ou outra maneira de dizer ou se for um poeta pode ele querer fazer poemas em função da sua performance no palco. Eu pessoalmente tenho dúvidas com relação ao resultado disso, porque poesia é poesia o que importa é a qualidade e a maneira de dizer o poema não deve ser, no meu ponto de vista senão a interpretação estrita do que está escrito ali, porque do contrário você altera a intenção do autor. Muitos atores e atrizes que dizem poesia – muitos, não digo, alguns – talvez não percebam que texto poético não é texto teatral, não tem que ser interpretado como um texto teatral, em que você tem diálogo, intenções  teatrais ali, dramáticas ou de comédia, ou de humor, o ator tem que encarnar o personagem, então ele cria dentro dele o personagem que tem um tom de dizer, um modo de dizer. Tudo isso pertence ao teatro, agora poesia não, o poema tá ali escrito, o poeta botou ali tudo o que é necessário ter para expressar o que ele quer. Cabe ao dizedor do poema dizê-lo o mais possível fiel ao que está ali naquele texto, evidentemente as intenções também. Então há evidentemente o modo de dizer não é pessoal,  (não) elimina uma certa interpretação, mas uma interpretação do texto, da intenção do autor, então isso é que é importante, de modo que – acho que dizer o poema não é nada mais do que dar voz àquilo que tá escrito.

Ericson – Você chegou a gravar um CD com Egberto Gismonti.
Já gravei mais de um.

Ericson- Nesse caso você tem um seleção especial de poemas que são melhores de ser ditos…
Não, não, não… Claro que não vou colocar, por exemplo, um poema concreto, por exemplo: mar azul, marco azul, barco, funciona, mas ele perde alguma coisa, porque ele como poema está mais ligado à visualidade

Nadam  – É uma arte gráfica…
E, não é que seja só gráfico, mas a disposição do poema na página tem importância, então é preferível botar outros poemas.

Acácia – Limita muito a possibilidades de cada um sentir o poema…
Porque se o poema depende de algum modo da sua visualidade, então se você só dizendo é evidente que alguma coisa se perde, então é preferível usar os outros poemas que não necessitam disso.

Mesmo assim, em relação aos outros, pelo que você disse, acaba perdendo um pouco até mesmo pela teatralidade com que eles são ditos…Pelas pessoas que são atores

Mas isso aí é um problema dos atores, quando eu seleciono, seleciono em função… Por exemplo, não vou botar um poema longo, porque um poema ouvido não é como o poema  lido. A seleção em geral eu faço procurando momentos diferentes da minha poesia. Esse é o critério, e não “ah, este é melhor para ser lido” isso tem uma influência relativa na (minha) seleção.

Nadam – E pegando ainda um pouco disso do.. de gravar um CD de poesia, de fazer uma poesia visual, você acha que é uma tendência de um certo tempo, de uma certa integração, ou seja, de um artista plástico estar usando  elementos de texto, de poesia ou elementos de teatro, você acha que isso é uma coisa que tende a se remisturar as artes…
Não… Veja bem, houve uma época com a poesia concreta e com a neo concreta e também em outros movimentos um pouco posteriores nascidos desses dois movimentos em que procurou explorar mais o aspecto visual do poema, mas foi um período, não acho que isso seja uma tendência, eu sei que existe ainda alguns poetas… outro dia recebi um revista com um número especial dedicado à poesia visual. Então tem de tudo: desenhos, tem fotomontagem com palavras… São experiências, mas não acho que isso seja uma tendência e que a poesia vai se transformar nisso.

Nadam – Então mudando de assunto, tem muita gente jovem escrevendo poesia e o mercado é sempre uma coisa difusa, meio … quase abstrata para quem começa a pensar nisso, publicar um texto, um livro. Queria saber a sua visão do mercado que há no Brasil e da possibilidade que isso possa vir a se modificar.
Na verdade, a poesia não tem muito a ver com mercado, não. E, naturalmente, se você faz o livro, você quer que o livro venda porque essa é a forma de a poesia ser difundida, porque se o livro ficar na livraria… Mas a possibilidade de venda da poesia mesmo quando se trata de poetas que vendem bastante é muito inferior à do romance, por exemplo, não há comparação –  que se considera um best-seller – um romance, de livro ficção, e um best-seller de poesia – o romance dá de dez a zero. A poesia, mesmo, quando vende bem, vende pouco em comparação ao romance. Mas isso não é uma coisa inteiramente negativa, não, pelo contrário, tem uma coisa positiva, porque como ela não tem valor no mercado, ela não sofre a pressão do mercado. Ninguém tá querendo loucamente que você escreva livros e livros de poemas para publicar. Ninguém, tá querendo isso. Nenhum editor tá louco para pressionar os poetas para eles escreverem livros para publicar, o que ocorre em outras artes. Por exemplo, na música popular, o cara tem que fazer um disco por ano, quer ele tenha vontade ou não quer ele tenha música ou não. Ele tem que se virar e fazer um disco por ano. Então o cara às vezes termina o disco no estúdio. Porque ele tem oito músicas, o disco precisa de 12, 14, ele tem que fazer o resto em casa, de noite, de madrugada, no estúdio lá na hora de gravar. Isso evidentemente não pode contribuir para a boa qualidade da música popular. Então a poesia não sofre isso. Eu por exemplo, meu último livro, Muitas vozes, que eu publiquei há alguns meses atrás, é um livro que tem cento e poucas páginas. Tem 60 poemas, eu levei 12 anos para fazer o livro. Então não há pressa nenhuma…

Nadam  – Pode contar com a inspiração…
Sim, porque arte e mercado são coisas que não têm muita compatibilidade, sobretudo um mercado exasperado como é o dessa sociedade massificada aí. Não tem a ver. O cara que produz arte pelos cotovelos evidentemente não produz arte. Tá produzindo entretenimento, tá produzindo mercadoria. Mas não tá produzindo arte. Porque é uma coisa um pouco mais complicada. Arte e poesia é uma coisa que se faz por necessidade. Inclusive o grande barato é fazer. O que mais interessa ao poeta é fazer o poema dele. Não é nem que os outros leiam, é fazer o poema dele. Depois vai ser lido, evidentemente. Mas a experiência de fazer é que uma experiência de vida, especial, que não se vive a todo momento, quer dizer, nenhuma pessoa está permanentemente dentro da poesia fazendo poesia. É uma coisa que acontece. Uma coisa rara, especial e preciosa. É incompatível com a produção em série. Não nada a ver. Por isso que as bienais viraram essa palhaçada, esse circo. Porque as bienais resolveram competir com as exposições de venda de automóveis e de eletrodomésticos. Então criam gigantescas exposições com milhares de quadros, só que não se produz milhares de quadros que prestem. Mas tem que fazer a bienal de dois em dois anos, então não há o que botar. Então a própria arte, os próprios artistas até inconscientemente se viram também movidos a isso, então eles fazem a instalação que é lá na hora. Então é entretenimento. O pessoal leva os filhos lá para ver. Então é um circo, um parque de diversões, não tem nada a ver com arte.

Ericson – Você acha do artista que se propõe a fazer três quadros por dia, todo dia?
O cara pode até estar inspirado, numa viagem fazer até 20 quadros geniais por dia, mas não como norma. Não existe isso… Qualquer coisa pode acontecer. Eu não tô aqui para estabelecer como é que a vida deve se desenrolar, agora, como norma, o cara produzir 20 quadros por dia, não existe, não. São coisas incompatíveis. Pela própria origem, pela própria natureza. Como é que eu vou fazer o poema por minha cabeça, porque eu quero. Ele é uma descoberta. Ele é uma coisa que depende da vida. Não existe isso. Então o cara não pode fazer um contrato com a editora dizendo assim: me comprometo a entregar um livro de poemas por ano. O que que isso? Só se for um picareta. Aí ele faz em cima da perna, qualquer coisa lá. Porque é para ganhar dinheiro. Aí passa a ser, como é a maior parte das coisas que se produz na sociedade hoje. Ganhar dinheiro, ganhar dinheiro. A qualidade dança.

Acácia – Como você disse uma vez. Se você quiser, pode fazer um poema, porque você sabe fazer.
Só que não vai prestar. O Oswaldo Goeldi, mestre da gravura brasileira moderna, o velho e querido Osvaldo, ele dizia “não sei gravar”. Só que ele era o mestre da gravura. Não sei gravar significa que manejar os instrumentos, utilizar as técnicas da gravura, isso ele sabia, mas sucede que isso não é suficiente para fazer uma gravura. Então o saber gravar depende de uma outra coisa que não é só a técnica. Isso não tem nada a ver com essa sociedade nossa.

Nadam – Você acha que uma outra sociedade artística…
Não, porque o capitalismo é incompatível com a arte em alguns aspectos. Não é que ele seja totalmente incompatível, mas ele tem muitos fatores que são negativos, como ele é negativo à própria humanidade. Ele transforma o ser humano em consumidor, ele destrói, dissolve os valores que o ser humano construiu. Todo mundo vira consumidor, e a sociedade num delírio, como num programa de auditório, como no Faustão. Então a sociedade vai virar isso, se a gente não se cuidar.

Nadam – E você vê alguma maneira de se cuidar?
Não, eu tô brincando. Eu acho que na verdade o ser humano é esperto. Ele não se deixa levar senão até certo ponto. Por exemplo, agora, isso, vocês fazerem uma revista de poesia e fotografia, botar a poesia aqui. Esses lugares que decidiram abrir espaço para a poesia e tal. Por que isso tá acontecendo? Houve algum decreto? Não. A própria sociedade que não é constituída só por babacas e freqüentador de auditório, as pessoas que se interessam por coisas melhores, pelo que eu chamo do biscoito fino, não encontra isso em parte alguma, resolve criar espaço para isso, porque as pessoas têm necessidade da boa poesia, da boa música, da boa pintura. Então vão buscar, vão arranjar uma maneira. Por isso é que a arte que qualidade não morre por isso. Quer dizer, ela não pode competir com essa massificação, evidentemente. Eu acho que a poesia, a boa música, cada dia vão se tendo, formando nichos onde essas coisas vão continuar acontecendo, mas em escala de massa, não. Escala de massa é futebol, é o rock na praia…

Ericson – Você acha que a poesia não tem condição de competir ou de atingir grandes públicos…
Não, não tem pela natureza dela. Veja bem, eu não tô dizendo que a maioria das pessoas não é capaz de perceber a poesia, mas a poesia requer alguma coisa – como leitura, experiência, interesse, coisas que têm de ser fomentadas na sociedade. Agora, mas no conjunto, a sociedade não fomenta isso, fomenta o contrário. O cara nasce, já tem o tamborim tocando do lado dele, já tem a TV funcionando, já tem o pagode. Não tem um livro de poemas nem ninguém dizendo poesia para ele. Nem ninguém mostrando para ele a boa pintura, a boa música. Não tem. É a sociedade que educa as pessoas, não é só a escola. A escola deveria educar melhor, mas o professor mais presente é a própria sociedade. É ela que educa. E educa em todos os cantos, no botequim, no bar, na escola, no corredor, em casa, no banheiro, em tudo quanto é canto tá educando. Na conversa da esquina, dos colegas, um colega educa o outro. Isso cria o que o cara vai ser. Entendeu? Então claro que as coisas mais requintadas, as coisas que requerem um pouco mais de delicadeza, de busca, de atenção, de sensibilidade, essas coisas são mais difíceis de introduzir na vida cotidiana, pela própria natureza da sociedade. Na sociedade do passado, cê tem uma pequena cidade medieval, comunidades menores, todo mundo participava de tudo, aqui é uma porção de bobagem, lá era uma porção de coisas que não eram boas, também, não era uma sociedade ideal, mas eu tô dizendo (apenas) sob esse aspecto pequena cidade, da pequena comunidade, então tinha lá um cara chamado Piero della Francesca. Então ele lá pintava na igreja da cidade uma crucificação, uma coisa lindíssima, as pessoas iam lá para missa. Não era uma exposição de pintura. Iam à missa e olhavam. Então era uma coisa toda numa escala diferente. E conheciam o próprio Piero della Francesca cujo nome de fato em bom português é o Pedro da Francisca.

Acácia – Então a busca da poesia, da arte, de um modo geral, já que a sociedade educa dessa forma, mas o que está mais presente nela são esses elementos como o pagode, o auditório, então é uma busca meio solitária da pessoa. De ir ao encontro da poesia num lugar pequeno como o Teatro Margarida Reis, no Estação das Letras. É uma busca solitária, já que a pessoa está sozinha, já que a sociedade não a fomenta…
Eu não sei se há mais solidão nisso ou se na confusão do Faustão, não sei onde há mais solidão, ficar pulando na praia, delirante, não sei onde há mais solidão. O fato que estarem pulando  não quer dizer que estão juntas. Eu tenho certeza de que me comunico muito mais com a pessoa que no silêncio pega meu poema, lê e se comove, é muito mais com ele do que se eu ficasse lendo o meu poema na praia para 300 pessoa que estavam ali no barato sem na verdade prestar atenção para nada. Não sei, tenho minhas dúvidas. Eu acho que a gente precisa passar a pensar essa sociedade nossa aí, tirar uma porção de mistificação que existe, da quantidade… sabe, porque a gente pensa assim: o jornal vende 250 mil exemplares por dia. Significa que 250 mil pessoas lêem todas as notícias, todas as matérias? Não, tem matérias ali que é lida por meia dúzia de pessoas, algumas centenas de pessoas. (Cê tá compreendendo?? Então essas coisas cê tem que ver a coisa de uma outra maneira. E o que é consagrado massivamente também é muito vazio. O best seller você lê e joga fora. Lê, acaba de ler e joga fora. Vai fazer o quê com ele? Aquilo é um entretenimento. Mas o livro do Drummond você guarda. Você não vai jogar fora. Vai ler “O sentimento do mundo” e depois jogar pela janela? Não vai. Aquilo é tão fundo em você, aquilo toca de tal maneira, passa a fazer parte de sua vida, você passa a ter  carinho por aquilo, vai guardar para reler. Então o que parece ser solitário e o que parece ser também… Por exemplo, quando Baudelaire publicou “As flores do mal”, na Segunda metade do século XIX, lá em Paris, que teve toda aquela encrenca com ele lá, censura, processo, tal. Não tirou uma multidão de exemplares. Depois ele próprio morreu lá esquecido. Muito bem, mas quantos milhares de exemplares foram sendo tirados ao limbo desses anos, desses séculos. E vai continuar. Então no fim, não se sabe o que tirou mais exemplares, se foi o rock pauleira ou se foi o Baudelaire. Porque eu tenho certeza de que muitas dessas coisas que tão fazendo maior sucesso aqui não vão durar, muitos deles não chegar ao fim do ano. Então tem que ver essas coisas porque… eu falo essas coisas porque a tendência das pessoas é se deixar levar por uma visão equivocada que é imposta pelo jornal, pela TV, pela massificação, por tudo, e a pessoa tende a achar que a verdade é essa, que essa é a realidade indiscutível. Mas quando o cara pára para refletir, talvez, ele possa ver. E isso é mais confortante para as pessoas, a visão que eu tô procurando expressar aqui é mais confortante para as pessoas porque valoriza o ser humano, cada pessoa, como a poesia e arte faz. É a valorização do ser humano. O que que é a Quinta sinfonia, o que que é as bachianas. É a valorização do que a pessoa tem de humanidade nela, entendeu? Não é a valorização da escrotidão dela. Porque grande parte dessa arte da sociedade é o elogio da escrotidão. O que o cara tem de bem escroto é que tem que ser louvado e valorizado. Então, de modo que há muito o que pensar sobre essas coisas. Então, mas o poeta jovem fica assustado diante disso: pensa, o que é que eu vou fazer. Ninguém vai tomar conhecimento do meu livro. Então, quem sabe, eu vou trocar de roupa, me vestir de troglodita e virar tocador de rock, contra a civilização, mostrar que eu sou bárbaro, (risos). Mas quando cara pára para pensar, vê que não é por aí. Faz a tua poesia. Só tem que fazer direito, não pode fazer de conta.

Ericson – Então, o que que é um poeta mesmo?
Não sei. Se é impossível viver sem fazer poesia, então você é poeta. Se não é, você não é. Poeta é destino, não é profissão. Poeta é destino, não tem saída, é aquilo. Ele não se entende a não ser assim, nem  sobrevive a não ser assim. Então ele é isso. Agora se pode fazer outra coisa, pode fazer, também. Porque tem uma porção de coisa para fazer na sociedade, não é só poesia. Poesia não dá camisa a ninguém.

Ericson – então, voltando um pouquinho, já que a gente tá falando aí em cultura de massa, você acha que … de política de formação de público, de formação de platéia, você acha que tem um caminho a ser feito?
Claro. Exatamente o que é necessário é isso. Veja bem, eu quero deixar claro o seguinte, eu não sou contra entretenimento, eu vejo televisão… Eu não vejo novela, eu vejo TV, e acho que os mais diferentes tipos de entretenimento são necessários. As pessoas não têm que de noite ficar lendo Dom Casmurro – coisa que ninguém aguenta, né? (risos) Mas só quero dizer isso, não aqui pregando elitismo, que o resto não tem valor, só tô estabelecendo a diferença entre uma coisa que tem um valor importante mas que parece não ter, e uma outra, que tem um certo valor mas que tá sendo mostrado como sendo de um valor indiscutível, que de fato não é.

Nadam – Você acha que não é compatível, por exemplo, um poeta resolver fazer uma banda de rock com os poemas?
Pode fazer, ué, se ele tiver qualidade, se não for só bobagem que ele vai berra lá com as músicas dele, tudo bem, eu acho que… Um roqueiro brasileiro, que eu não vou dizer quem é, cantando lá um negócio, quer dizer… uma letra ruim, a qualidade… não é poesia, não é poético… É um discurso banal, demagógico que o cara faz. Não tem nada a ver com poesia. Eu não tô querendo que o cara fique fazendo um Noel Rosa ou um Chico Buarque a vida inteira, era bom que até pudesse fazer, mas tem que ter a qualidade dele. Quer fazer diferente, tudo bem, mas tem que ter qualidade, não pode ser um discurso bobo, vulgar, apresentado como se fosse de qualidade.

Nadam – Não quer dizer quem é…
Não, coisas assim, quer dizer, tem que ter a qualidade, porque discurso demagógico deputados fazem, não precisa de roqueiro para fazer essas coisas a toda hora. A qualidade das coisas é que importa. Porque melodia já não, a música do cara já é um blábláblá, não tem melodia, a letra também não é nada, o que é que sobra? Eu mal ligo o rádio. Esses pagodes também são uma coisa inacreditável, é uma coisa comercial. Originalmente era bom, né? Porque aquilo era de fundo de quintal mesmo, uma coisa que tinha autenticidade, mas depois virou um negócio coisa comercial, é cópia de cópia de cópia, tudo repetido, não tem qualidade nenhuma, as letras são umas bobagens… Aí fica aí vendendo, nego ficando rico e tal. Tudo bem, mas qualidade não tem. Mas tua pergunta era o que, se pode criar público? Acho que pode é um problema que tá aí na mão das escolas, de professores, da universidade. Trabalhar no sentido de valorizar o ser humano.

Ericson – Valorizando o ser humano tá valorizando…
É, porque uma forma de valorizar o ser humano é valorizar essas coisas. É valorizar a ética, e valorizar a arte. Porque a arte é uma das coisas mais importantes como expressão de humanidade das pessoas.

Acácia – O que você acha dessa alternativa das editoras virtuais?
Acho bom, acho legal. Acho que todos os modos possíveis de difundir a poesia são positivos. O jovem poeta tem dificuldade de publicar seus livros. Eu acho que certamente o cara não vai se conformar só em botar o poema dele na Internet, ele vai querer publicar o livro. Seja porque for, o livro é uma coisa que ainda tem um peso na vida das pessoas. Pode até ser uma coisa simbólica, mas enfim, acho que o cara, em todo caso vai querer ter os seus poemas impressos lá no livrinho, com as páginas todas. Mas é difícil, a dificuldade é grande, e que não é de hoje. Eu pessoalmente enfrentei essa dificuldade, apesar de.. Meu primeiro livro eu publiquei com 18, 19 anos. Foi pago por mim. O segundo livro: A luta corporal, que me deu projeção, me deu reconhecimento nacional, que foi publicado em 54, foi publicado, foi pago por mim. Então, eu só tive um livro meu de poemas publicado por uma editora (eu estreei em 1949, só em 1966 eu tive um livro publicado por uma editora, e não uma grande editora, por uma pequena editora) e assim mesmo foi o livro A luta corporal e novos poemas, na verdade era a edição de um livro que já estava consagrado 12 anos depois de ele ter sido editado, com alguns poemas novos, de modo que essa dificuldade todos os poetas enfrentaram e continuam enfrentando. O Bandeira enfrentou…

O Geir Campos e outro poeta conseguiram montar uma pequena editora tendo em vista essa dificuldade…

A Hipocampo. Mas era para fazer pequenas tiragens. E não era um livro, em geral era um poema. Perfeitinho, um livro bonito, bacana. Mas era assim, eram meios de difundir a poesia e tal, porque a editora mesmo comercial, o cara só alcança mesmo depois de muitos anos.

O João Cabral, mesmo, teve o primeiro livro publicado por uma edição de amigos…

A 1ª edição de Educação pela pedra foi por amigos. A 1ª edição de Cão sem plumas era ele mesmo, na gráfica que ele tinha em casa. O Bandeira, a Lira dos 50 anos foi feito por cotização. Ela já tinha 50 anos de idade, era um poeta consagrado, mas o livro foi publicados por amigos que se cotizaram, e pagaram o livro. Então de modo que, hoje, até de um certo aspecto, melhorou um pouco. É evidente que nem eu nem um outro poeta de certo reconhecimento paga seus livros, mas já se vende. Meus livros todos têm várias edições. Pequenas, claro, não é best seller, não sou autor de best seller. Melhorou um pouco, mas o começo continua muito difícil, mas para todos os poetas. Muito difícil.

Ericson – Existe algum nome hoje na poesia atual que conseguiu se sobressair, que se destaca pela qualidade da poesia?

Tem, mas eu não gravo os nomes porque eu recebo muitos livros de poetas jovens do Brasil inteiro, leio. Alguns são bastante interessantes. Poucos são bons, a maioria não é boa. Mas tem alguns que são bons poetas, mas é difícil no primeiro ou segundo livro você perceber, quer dizer, dá para perceber que ali tem um poeta, mas é preciso publicar mais, é muito raro aparecer um poeta que já cedo se imponha, mostre uma qualidade excepcional, isso é bastante raro na história da literatura toda, não é só aqui. Mas existem bons poetas. Mas eu realmente não me lembraria de todos os que eu considero bons e no entanto fica meio chato eu dizer, porque aí exclui alguns. Pode até excluir o que você mais gosta. Mas tem bons poetas aí que tão publicando, preparando livros.

Ericson – Que você acha que vão ficar…
Não sei se vão ficar, mas que tem qualidade de poeta, isso tem. Tem aqui, em São Luís, em Recife, Porto Alegre. Eu recebo livro de tudo quanto é canto e vejo que tem poesia de qualidade sendo feita.

Nadam – Aproveitando…

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